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sexta-feira, maio 19, 2006 

Aprender a Estudar para aprender a Tocar

Muito tempo fiquei investindo horas e horas no estudo de peças para o violão. Apesar do investimento, sentia que o retorno estava sempre muito aquém do que o esperado. Diversas vezes fui abraçado pelo nada desejoso sentimento de frustração ao perceber que algumas técnicas e trechos de músicas do meu estudo ainda apresentavam deficiências graves, fazendo com que a fluência da interpretação sempre ficasse deficitária. E, dentro da minha ignorância, achava que o culpado era eu e somente eu.

Aprendi muitas coisas importantes no que se refere ao estudo. Busquei atender algumas premissas básicas para o estudo do Violão Erudito como, por exemplo, ter um bom professor, ter um bom violão e manter uma disciplina de estudo. Ao achar que estava fazendo tudo como mandava o figurino e, mesmo assim, sentindo minha evolução ainda deficitária, acabava achando que o problema era apenas comigo, seja por falta de talento, dificuldades diversas, etc. E assim correu a bola de neve durante alguns anos.

Creio que este breve relato não deve ser uma questão individual. Acredito haver identificações diversas, em níveis e momentos diversos. E é sobre esta questão que a pouco me deparei com uma realidade que me fez reavaliar todo esse investimento. A questão principal, motivo deste relato, é: devemos aprender a estudar para aprender a tocar.

Considero hoje o processo de estudo do violão erudito uma das questões de total impacto na evolução de um estudante. O que vou descrever a partir de agora, acreditem, já era do meu conhecimento, mas não estava inserido na prática do meu estudo. Talvez por não dar a devida importância, ou talvez por achar que não era de impacto relevante. Grande erro meu que perdurou alguns anos.

Mas antes, gostaria de ressaltar que existem diversos métodos de como potencializar as horas de estudo investida, este não é o único mas apenas um deles. Para facilitar o entendimento, vou enumerar as regras que sigo:

1) Ao estudar uma peça, antes de tudo, devemos ter a consciência de que esta peça está dentro do seu nível. Para os mais iniciantes, evitar tentar tocar peças com dificuldades muito acima do que é capaz;

2) Dêem uma analisada detalhada na peça antes de pegar o violão. Veja seu compasso. Perceba se existe alguma figura da escrita que foge do seu conhecimento. Perceba as notações de andamento e intensidade. Procure saber do compositor e da época da música. Se possível, solfeje-a;

3) Ao começar a tocar, tenha em mente que uma pessoa passou um tempo escrevendo-a, pensando em como tratar cada parte. Retribua esta atenção. Toque-a com total atenção e capricho, mesmo que de forma bem lenta. Tente não errar nenhuma nota na primeira leitura. Perceba que para isso, você terá que ter a certeza da nota que vai tocar antes de atacá-la. A primeira leitura de uma peça deve ser vista como uma forma de retribuição ao esforço do compositor. Faça-a nem que seja por respeito;

4) Estude o primeiro compasso. Coloque como objetivo tocar este compasso, da forma mais perfeita que deseja, 3 vezes consecutivas, sem errar. Errou, zere o contador. Sobre esta perfeição, me refiro ao conjunto de notas estar claras e limpas, andamento de acordo com o que especificado, caso tenha ralentando, estacato, fermatas ou qualquer outro símbolo, considere-o. Dê-se por satisfeito apenas quando tocar 3 vezes consecutivas o compasso da forma mais perfeita possível. Reveja a digitação caso necessário, procure sempre a forma mais interessante para o compasso;

5) Após resolvido o compasso 1, repita a mesma regra, só que na passagem do primeiro compasso para o segundo compasso (pegue o final do primeiro e o início do segundo). Estude essa passagem até conseguir toca-la 3 vezes consecutivas, com perfeição. Errou, zere o contador. Algumas vezes, alterar a digitação do primeiro compasso seja interessante. Caso isso aconteça, volte ao primeiro compasso e estude-o com a nova digitação;

6) Estude o segundo compasso da mesma forma que o primeiro.

7) Finalmente, estude o primeiro e o segundo compasso juntos, e sempre seguindo a mesma regra, ou seja, estudar repetidas vezes até tocar este conjunto de dois compassos sem erros por três vezes consecutivas. Errou, zere o contador;

8) Resolvido os dois primeiros compassos, vá para o segundo e o terceiro compasso. Siga as mesmas regras citadas nos passos 4, 5, 6 e 7, só que trabalhando o segundo e terceiro compasso;

9) Percorra toda a música aplicando a regra. Vá de compasso a compasso ( 1 e 2, 2 e 3, 3 e 4, 4 e 5 e assim vai);

10) Terminado o passo 9, amplie a regra. Comece a trabalhar dois compassos por vez. Por exemplo: trabalhe o primeiro e o segundo juntos, depois a passagem do segundo para o terceiro, depois toque os quatro primeiros compassos juntos. Estude a música toda assim. Neste momento, caso seja possível, você já poderá fazer as divisões por fraseados. Dividir por fraseados musicais é bastante interessante;

11) Finalmente, comece a estudar a peça como um todo, colocando sua interpretação pessoal nos pontos que dão margem a esse trabalho. Como dito anteriormente, regras semelhantes a esta tinham sido me passada, mas não dei a devida importância. Hoje percebo claramente o quanto estes pequenos detalhes na forma como se estuda tem um impacto gigantesco na qualidade da sua interpretação.

Lembrem-se: caso estejam achando que você não é capaz ou que não possuem talento suficiente, procure repensar a forma que está levando seu estudo. Talvez ali esteja o verdadeiro problema! Existem outros fatores não descritos nesta postagem que também devem ser considerados. Mas estes, deixemo-os para os próximos posts!

Grande Abraço a todos!
Augusto